Em madrugada insone, companhia dos últimos tempos, assisti Forrest Gump, no Corujão. Como um filme pode parecer tão melancólico, é uma pergunta que me faço. Forrest, o limitado idiota que conta histórias. Amoroso, solitário, rico. Aquele que percebe o que é complexo, mas precisa da simplicidade para entender. Não sabe o sentido da vida, mas busca: na história da sua vida, o amor. As ordens que o amor lhe dá, as explicações que seu amor compreende, a sensibilidade no toque, as proibições morais. Sua desimportância importante. Pouco mudamos na vida. Pouco mudamos da vida. Quando doeu demais, Forrest correu e correu. Porque não sabia o que fazer. Muitos acharam que era ele quem sabia exatamente o que fazer.
A pessoa gorda tem medo de ter fome. Tem medo de ter fome porque tem sede de vida. Come mais do que precisa porque sabe que é a comida que lhe dá energia pra continuar o caminho. Não sabe bem o que fazer, ao longo do caminho. Às vezes não consegue fazer nada: só tem medo ou somente chora ou somente pensa no que pode fazer, buscando atalhos que não existem. Não existe atalho para o futuro. Na infância, desejei o futuro, na adolescência, desejei o futuro. Como adulta, criei filhos, tive marido. Esperei o futuro. Vivi a vida acreditando que podia mudar alguns valores do mundo. Uso chinelo de couro e roupa fora do padrão ocidental pra demonstrar que me sinto diferente, mas ando em grupos, o que me faz igual.
Hoje queria o passado para mudar o que acho foram erros. Pra reformular até meus próprios sentimentos. Porque não nos é dado o direito de calcular cada passo, a caminho do acerto, é outra pergunta que me faço. Fazemos o que nossos pais não fizeram ou reproduzimos o que nos ensinaram. Muitas vezes, fazemos o contrário do que eles fizeram. Meu pai viveu a vida toda num emprego. Minha mãe o criticava: acomodou-se, num único trabalho. Tentei não me acomodar, mas não me interessam grandes responsabilidades, com muito poder e pouco dinheiro, dentro de uma instituição. Mas este é um sentido pra vida de muita gente. Quero ser parte de, dizer como sinto, mudar o caminho, meu e das pessoas com quem convivo. De novo, o futuro: talvez se eu ganhasse mais... Seria feliz, é minha terceira pergunta de agora. Entenderia melhor a vida, quem sabe. Forrest Gump não entendeu a vida, mas foi capturado por ela, reconhecido, condecorado, bem sucedido. Depois dos grandes eventos, a vida continua. E o que ficou foi o amor. Um amor sincero, que existiu sempre, com afastamentos e aproximações. O amor nos acompanha, mas não é o mais importante, porque buscamos o tempo todo nos instalar na vida, ser reconhecidos pelos outros. Movidos pela paixão, necessária para acelerar o coração e oferecer sensação de saciedade, dispensável quando nos leva a extremos que podem magoar, a nós ou aos outros. Dispensada também quando pode matar. O amor pode sempre esperar, quando é incondicional, então, nunca é priorizado. Conviver é importante, mas difícil. A quem amamos, queremos mudar. Com quem apenas convivemos, aceitamos o jeito de ser. Podemos aceitar o jeito de ser de quem amamos, para convivermos. Mas não é assim que se dá. Forrest (com dois erres, é minha quarta pergunta) conviveu e amou, lutou sem acreditar, somente porque achou que era o certo.
Forrest é tomado, em toda a vida, por uma completa idiotia, conquista tudo o que as pessoas inteligentes gostariam de conquistar. Pessoas inteligentes nem sempre conseguem desembaçar o foco para alcançar suas metas: se distraem com atrações paralelas, sempre aquelas que mais fascinam. Pessoas inteligentes nem sempre querem ou conseguem o sucesso, ganhar dinheiro, viajar, ter casa bonita. Mas precisam ter, pelo menos, um jardim pra cuidar, um cão ou um gato pra cuidar. Tudo isso pra acompanhar o chamado viver da vida.
Magda, minha preciosa amiga de infancia-sim posso considerar 13 anos infância.
ResponderExcluirMeu mais precioso reencontro, depois de quase 20 anos de distancia.
Leio seus devaneios como se fossem meus próprios, tal a semelhança... E te digo mais: depois de meio século, procuramos qualidade!
Já perdemos muitas das ilusões iniciais, muito do escrúpulo... algumas fantasias sobre filhos , família, profissão... a perda , eminente ou real dos nossos Pais(com todos os seus defeitos e qualidades) nos assombra! Aí chega a hora da prova dos 9.
E vamos aproveitar a outra metade o século! Agora, sem preliminares.
Te amo!!!!
Oh, Evinha! Te digo o mesmo sobre um precioso reencontro. Gosto de ter você, gosto quando sou você. Não é? Acho que somos um pouco a outra, tantas vezes... Acho que é bom ter mais metade de século pra estar onde estamos. Ou, quem sabe, até mais que isso! Meu desejo, agora, não é mais ser feliz: é, simplesmente, viver. O que não deixa de ser mera tentativa. Obrigada pela leitura.
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